Isaura Lemos escreve artigo sobre os 34 anos do Diário da Manhã. Confira!

 

Cinco de Março e Diário da Manhã

 

Criado em 1959, o jornal Cinco de Março foi idealizado após uma manifestação de estudantes contra aumento das passagens de ônibus e mensalidades escolares. Pasmem! Isso em 1959. A manifestação foi duramente reprimida pela polícia, e, para dar continuidade à luta, decidiram fundar um jornal, cujo o nome relembra a data daquela batalha.

Como sempre, aquela manifestação ocorreu na Praça dos Bandeirantes, a mesma que nove anos depois seria palco de novas e violentas repressões contra novos protestos dos estudantes e populares, dessa feita contra a ditadura militar, quando mataram um lavador de carros. O morto era muito parecido com o líder estudantil goiano, Euler Ivo. Tão parecido a ponto dos policiais buscarem e levarem seus familiares até o Hospital Santa Luzia para reconhecer o corpo.

Pois bem, voltando a 59, o jornalista Javier Godinho , em depoimento sobre aquele período, resgatou o início do semanário Cinco de Março, lembrando dos pioneiros dessa imprensa questionadora: Batista Custódio, Telmo Faria, ele próprio e líderes da UGES (União Goiana de Estudantes Secundaristas.) Também Consuelo Nasser, Valterly Guedes e Zoroastro Artiaga faziam parte da turma. Coube a Consuelo Nasser a grande contribuição daquele ideal, ao conseguir, junto do seu tio Alfredo Nasser, proprietário do Jornal de Noticias, a doação da máquina tipográfica usada na feitura do jornal. Segundo Godinho, a simplicidade das instalações e maquinário era visível. O jornal era pequenininho e muito barato, vendia muito. “Todo mundo ganhava muito pouco, todo mundo trabalhava lá porque gostava”.

Não poderia ser diferente a vida e o futuro daquele jornal cheio de idealismos e que deixou sua marca de resistência na memória da imprensa goiana. O Cinco de Março já nasceu perseguido. Sua situação piorou com o golpe militar de 64. Foi preciso muita astúcia, muita determinação e matreirice para continuar existindo. Batista e Telmo foram presos. Por cinco meses, o jornal não circulou. Após retornar, teve sua sede invadida por policiais que destruiu máquinas e documentos. Apesar da censura, o Cinco de março continuou sua linha editorial voltada para denúncias de corrupção e má prestação de serviços públicos. Em 1965, chegou a vender 60 mil exemplares por edição. Nos anos 70, com a ascensão do general Garrastazu Médici, Batista foi novamente preso. Dessa vez, por crime de opinião. Apesar de tudo, o Cinco de Março sobreviveu por 23 anos.

Quando cheguei em Goiás, em 1982, o jornal Cinco de Março encerrava suas atividades de forma traumática. Logo reagiram. Batista e Consuelo lideravam um novo formato, um diário: o Diário da Manhã.

Com o Diário da Manhã, as perseguições continuaram. O espírito libertário e irreverente de Batista não permitia tutela, e novamente a agressão, o boicote e o fechamento por dois anos do novo jornal. Mesmo assim, o Diário da Manhã já circula em Goiás há 34 anos.

Do idealismo e sofrimento, vieram os pés no chão. Para continuar com esse instrumento de luta, era preciso aprender não dizer tudo. Todos lutadores que possuem estratégia percebem isso. Recentemente, no filme premiado no Oscar: ’12 anos de escravidão’, o principal personagem – homem já livre e que sequestrado por senhores escravistas do sul da América, viveu mais doze anos de escravidão – foi aconselhado por seus companheiros escravos a não mostrar tudo que sabia, pois poderia perder a vida.

No lançamento do Diário da Manhã Digital, lembro-me das palavras ditas por Batista, de forma solene, a todas autoridades e personalidades presentes. Pela experiência que teve a vida toda, poderia afirmar que não existia imprensa independente. Falou o que todos já sabiam, porém teve a coragem de dizer. Ao invés de um discurso exaltando a evolução de seu jornal, admitia suas limitações para poder sobreviver.

O Diário da Manhã foi inovando a cada momento, se modernizando em diversos aspectos. Depois abriu parte de suas páginas a quem quer que quisesse se manifestar, através de artigos sem censura. Parabéns, Batista você continua resistindo !

Consuelo, que também lutou muito pela imprensa independente, demonstrou em toda sua vida a força de uma guerreira. Dedicou-se, nos últimos anos, à causa emancipacionista da mulher, transformando-se no maior símbolo da luta feminista do nosso estado.

Por isso, nesse mês de Março, quando comemoramos o aniversário do surgimento do Cinco de Março, depois do Diário da Manhã, reverenciamos seus fundadores resistentes e amantes da justiça e da verdade.

 

Isaura Lemos é deputada estadual em seu quarto mandato e presidenta estadual do PCdoB

 

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